O que um prédio precisa ter hoje para continuar atual daqui a 20 anos

Foto: Divulgação Mirante


Arquitetura, qualidade construtiva, áreas comuns e localização ajudam a explicar por que alguns empreendimentos atravessam décadas acompanhando as mudanças na forma de morar


O tempo é um dos testes mais exigentes para qualquer empreendimento imobiliário. A frase pode parecer óbvia, mas ajuda a compreender uma questão que acompanha arquitetos, engenheiros, incorporadores e, principalmente, quem compra um imóvel para viver por muitos anos. Enquanto algumas construções atravessam décadas mantendo funcionalidade e identidade, outras passam a revelar muito cedo soluções datadas, áreas pouco utilizadas ou estruturas que já não correspondem à rotina de seus moradores.

A longevidade de um empreendimento não depende de uma única escolha. Começa na arquitetura, passa pelos materiais e pelas soluções de engenharia, alcança fachadas e áreas comuns e continua na capacidade do projeto de acomodar mudanças que nem sempre são previsíveis no momento de sua concepção. O desafio é construir para o presente sem aprisionar o edifício às tendências do presente.

Essa discussão ganhou novas dimensões nas últimas duas décadas. A casa mudou, assim como as famílias e a maneira de utilizar os espaços residenciais. O condomínio deixou de funcionar apenas como endereço e extensão mínima da moradia. Áreas de lazer ganharam importância, serviços passaram a integrar a rotina e espaços compartilhados assumiram funções que antes estavam quase inteiramente dentro da área privativa.

Para incorporadoras com empreendimentos entregues há mais de 20 anos, observar como esses edifícios envelheceram também funciona como uma espécie de laboratório. A Mirante Incorporações, fundada em 2003 e com boa parte de sua trajetória ligada a Águas Claras, passou a utilizar a experiência dos projetos anteriores para avaliar quais escolhas permaneceram funcionais, quais necessidades dos moradores se transformaram e o que precisa ser considerado hoje para que um novo empreendimento continue fazendo sentido daqui a duas ou três décadas.

Uma das conclusões está justamente na diferença entre incorporar uma novidade e perseguir tendências. Para Jamil Lessa, sócio-fundador e diretor de novos negócios da Mirante Incorporações, longevidade exige certa contenção nas escolhas.
Um projeto não pode depender da tendência daquele momento para ser interessante. Procuramos uma arquitetura que atravesse o tempo, com soluções bonitas, neutras e sofisticadamente simples. Quando se projeta pensando em décadas, é preciso saber separar aquilo que é novidade do que realmente continuará entregando valor para quem vai viver ali, afirma.

O raciocínio vale especialmente para elementos sobre os quais o proprietário individual tem pouca ou nenhuma possibilidade de intervenção. Um apartamento pode ser reformado diversas vezes ao longo de sua existência. Fachadas, estruturas, circulação, elevadores e grande parte das áreas comuns dependem de decisões coletivas e, muitas vezes, de intervenções caras e complexas. Quanto mais acertadas forem as escolhas feitas na origem do projeto, menores tendem a ser as limitações impostas pelo próprio edifício no futuro.

As áreas comuns são um bom exemplo de como essa percepção mudou. Quando a Mirante lançou um de seus primeiros residenciais com conceito de condomínio clube em Águas Claras, concentrar uma estrutura mais ampla de lazer dentro de um empreendimento ainda era um diferencial. Com o passar dos anos, espaços de esporte, convivência e lazer ganharam outro peso na decisão de compra e passaram a ser vistos por muitas famílias como parte efetiva da moradia.

A mudança não significa simplesmente multiplicar equipamentos. O desafio está em projetar espaços que sejam efetivamente utilizados e capazes de acompanhar diferentes momentos da vida dos moradores. Uma área comum que funciona bem precisa considerar circulação, manutenção, segurança e convivência, além da própria finalidade para a qual foi criada. Do contrário, aquilo que parecia um diferencial no lançamento pode se transformar em custo elevado ou espaço ocioso alguns anos depois.

Há também soluções menos visíveis que ajudam a revelar como necessidades práticas permanecem ao longo do tempo. No Mansões do Parque, por exemplo, a Mirante implantou um elevador de carga com ligação entre a garagem e os pavimentos, facilitando o transporte de compras e outros volumes. À época, a solução fugia do padrão de muitos residenciais. Anos depois, a mesma conveniência passou a aparecer como atributo em novos projetos de alto padrão.

O exemplo mostra que longevidade imobiliária não significa apenas resistência física. Um edifício pode estar estruturalmente preservado e, ainda assim, ter perdido funcionalidade diante de mudanças no cotidiano. Envelhecer bem também significa continuar resolvendo problemas simples da vida de quem mora ali.

Essa transformação do morar se acelerou à medida que os condomínios passaram a concentrar mais atividades. O espaço residencial hoje precisa dialogar com uma rotina em que convivência, esporte, lazer, serviços e comodidades estão mais próximos de casa. Para as incorporadoras, isso exige observar comportamento e hábitos sem pressupor que toda mudança atual permanecerá relevante no futuro.

É nesse equilíbrio que Jorge Lessa, sócio da Mirante Incorporações, situa uma das principais lições acumuladas pela empresa. 
Ao acompanhar nossos empreendimentos depois da entrega, entendemos que qualidade não está apenas naquilo que chama atenção quando o imóvel é novo. Ela aparece também anos depois, quando a arquitetura continua atual, as áreas comuns permanecem úteis e as soluções construtivas seguem atendendo aos moradores. É essa permanência que buscamos quando começamos um novo projeto, afirma.

Outro componente ganhou ainda mais peso nos últimos anos e não pode ser reformado depois da compra. A localização. Mudanças internas, atualização de acabamentos e adaptações de áreas podem prolongar a vida útil e funcional de um imóvel, mas seu endereço permanecerá o mesmo. Mobilidade, serviços, comércio, infraestrutura urbana e a relação com o bairro interferem diretamente na experiência de morar e na capacidade de um empreendimento permanecer atraente com o passar do tempo.

Isso ajuda a explicar por que a discussão sobre longevidade ultrapassa os limites do lote. Um edifício projetado para durar precisa dialogar não apenas com seus futuros moradores, mas com uma cidade que também continuará mudando ao seu redor. A proximidade de transporte, a possibilidade de realizar atividades cotidianas sem grandes deslocamentos e a qualidade dos espaços urbanos entram cada vez mais cedo nas decisões sobre novos projetos.

Na arquitetura, o desafio permanece semelhante ao de décadas atrás. Antecipar o futuro é impossível. Construir de maneira a não impedir que ele aconteça, não.

Para a Mirante, acompanhar edifícios concebidos no início dos anos 2000 e observar como continuam sendo ocupados trouxe uma referência que nenhuma planta oferece antes da entrega. O tempo passou a funcionar como medida das decisões tomadas no projeto. Algumas novidades desapareceram. Outras deixaram de ser novidade e se incorporaram definitivamente ao modo de morar.

É talvez aí que esteja uma das diferenças entre um empreendimento simplesmente antigo e um empreendimento que envelheceu bem. O segundo não precisa permanecer igual ao dia em que foi inaugurado. Precisa ter sido suficientemente bem pensado para continuar útil enquanto a vida ao seu redor muda.

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